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A ciência do bom mestre

Texto original: Geek & Sundry | How to become a better game master according to science, por Katrina Ostrander.

A ciência do bom mestre. Por Canva.

Então, você tem uma coleção de guias para mestres, dicas do Geek & Sundry o suficientes para montar uma playlist, e um grupo de jogadores que estão felizes de serem suas cobaias. Agora, para tornar-se um ótimo mestre, tudo o que você precisa é acumular dez mil horas* de prática dessas técnicas para ser um expert da mestragem, né?

Não é bem assim.

De acordo com uma pesquisa, simplesmente ler um livro, assistir um vídeo ou ouvir um podcast e testar esses conceitos não basta para te tornar melhor. Peak: Secrets from the New Science of Expertise (uma tradução possível seria: Topo: Segredos da nova ciência da competência) por Anders Ericsson e Robert Pool detalham o processo, com números para embasar, de como se tornar bom em praticamente qualquer coisa. Você tem que praticar o que aprendeu, mas precisa adquirir essa prática da maneira correta.

Se você simplesmente fizer algo repetidamente por um longo período de tempo, você não tem grandes chances de se tornar um especialista naquilo. Você tem que tentar, falhar, recalibrar e tentar de novo. Em seu livro, os autores discutem o método que comprovadamente funcionou para os principais atletas, músicos, cirurgiões, mestres do xadrez e demais “principais” do mundo: é chamado de prática deliberada, e ele é feito para ajudá-lo a criar representações mentais mais firmes.

Representações mentais (ou formas de pensar sobre algo) são o que separam um mestre bom dos ótimos. Uma representação mental bem desenvolvida permite que o mestre faça malabarismo com elementos diferentes da trama, NPCs e a cadência da história, tudo de uma vez: eles treinam para conscientemente levarem tudo isso e mais em conta nos momentos certos do jogo. Representações mentais também oferecem aos mestres um modelo para ter uma noção de como arbitragens diferentes ou escolhas dentro da trama impactarão o jogo, o que os ajuda a tomar a melhor decisão possível quando tiverem que lidar com decisões inesperadas de seus jogadores ou resultados dos dados para os quais não estavam preparados.

Eis o que os autores de Peak dizem que você deve fazer para fazer a prática deliberada e reforçar essas representações mentais:

Defina objetivos específicos

Para fazê-lo assimilar as dicas de como mestrar, você precisa desenvolver um exercício que o ajude a praticar cada parte específica da dica que queira aperfeiçoar. Não é o suficiente ter um objetivo vago como “fazer vozes características para os NPCs”. Tenha objetivos como: “Eu vou variar a intensidade de cinco NPCs nesta sessão”, e coloque caixinhas te lembrando disso em suas anotações, para ir marcando cada vez que fizer um NPC com intensidade emocional diferente. Nas suas anotações de mestre, lembre-se de dar a cada NPC a descrição de uma voz quando está numa intensidade emocional baixa, outra para a média e uma para a alta. Da próxima vez que mestrar um jogo, adicione mais uma caixinha, e depois outra. Não pare até que tenha se tornado automático associar um tom de voz especial para cada estado emocional de cada NPC que você interprete.

No outro exemplo, imagine que seu objetivo é: “melhorar o ritmo da narração”. Preste atenção para que seja consciente quando estiver aumentando a intensidade dramática de uma cena ou quando estiver resumindo os acontecimentos dela. Quando estiver conseguindo perceber melhor este processo, experimente diminuir intencionalmente a duração de suas cenas em uma sessão. Por fim, tente alongá-las bastante e veja o que acontece.

Mantenha-se focado o tempo inteiro

Créditos da imagem: Margaret Dunham

Quando treinar em sua mesa, tenha certeza de estar realmente focado no exercício. Preste atenção no que está fazendo e no porquê de estar fazendo. Analise seu processo mental por trás de cada decisão que tome, relacionada com o seu objetivo, e tente extrapolar quais seriam os resultados mais prováveis. Escreva notas caso isso te ajude a lembrar de seus processos mentais e previsões que tinha feito antes de tentar.

Isso significa que você provavelmente terá de mestrar sessões mais curtas e focadas. Já que a sessão típica de 4 horas será exaustiva se você ficar analisando e estudando tudo o que estiver estiver fazendo o tempo inteiro. Alternativamente, você pode separar seus jogos em seguimentos de 25 minutos e tentar ficar bem focado durante esses segmentos. Qualidade é mais importante que quantidade aqui.

Incorpore as críticas e ajuste

Agora que você sabe exatamente o que está fazendo e tentou prever o resultado de suas ações, quão certo estava em seus palpites? Quão perto estava do seu objetivo? Descubra o que funcionou com seus jogadores e o que não funcionou, e depois veja a opinião deles a respeito. Peça também a opinião de mestres que você admira (e talvez os convide para uma sessão one-shot, caso não jogue com eles regularmente). Desta forma, você pode aprender se suas escolhas foram as melhores. Na próxima sessão, faça do seu objetivo não repetir os mesmos erros que detectou. Quanto mais críticas você receber e assimilar, melhor você conseguirá fazer sua auto-avaliação, aí você poderá perceber antes de fazer algo que não condiz com o resultado que queria alcançar e ajustar sua estratégia no meio do jogo.

Descubra o nível de desafio apropriado

Crédito da imagem: Margaret Dunham

Busque sempre tentar alcançar o nível além de sua zona de conforto. Isso significa aumentar gradualmente a dificuldade de seu treino, de forma que esteja sempre se esforçando para melhorar a cada sessão. Tente se manter no ponto ideal de ser desafiado pelos objetivos, mas sem ficar frustrado com suas falhas. Diminua um pouco a dificuldade caso esteja falhando em alcançar os objetivos traçados para cada sessão, e então tente novamente.

Use habilidades adquiridas no processo

Tente não esquecer o que aprendeu, adicione suas novas habilidades em sua rotina de exercícios. Desta maneira, você estará praticando também sua capacidade de manter a consciência de todos os processos de melhoria que estará praticando, o que te ajudará a tornar-se um mestre melhor. Planeje revisar seus exercícios e veja se eles ainda incorporam habilidades adquiridas em seus treinos anteriores. Se achar difícil treinar duas habilidades juntas, minimize o número de coisas que estará treinando ao mesmo tempo até chegar num ponto em que consiga manter, e à partir daí tente aprimorar sua capacidade de dar conta de executar múltiplas dicas de mestre juntas.

Ao usar essas técnicas, você deve ser capaz de perceber se está se aprimorando ou não. E você se aprimorará mais rápido com elas do que se estivesse com objetivos vagos sobre “ser um mestre melhor”.

Tente isso. E nos diga se funcionou para você no espaço de comentários abaixo!

*Curiosidade: Se você mestrar um jogo de 4 horas por semana, levaria 48 anos para alcançar o nível de expert em mestrar!

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Mulher na Mesa

DicasOu: Como jogar com seres humanos.

Edit: O blog Livro dos Espelhos publicou a Carta Aberta das Mulheres RPGistas, provavelmente o melhor texto que você poderia ler sobre o assunto em português.

Versão curta: Estamos no século XXI. Já passou da hora de parar de aprender como lidar com jogadores mulheres/trans/negros/homossexuais/leitores-da-Caras e começarmos a simplesmente tratar as pessoas com quem jogamos como pessoas de carne e osso que merecem respeito.

Versão longa:
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O ótimo é inimigo do bom

DicasEu tenho um problema sério para manter as minhas campanhas rolando. Eu sempre sou assombrado por uma sensação de que não conseguirei mestrar direito e manter as coisas interessantes para meus jogadores. E essa sensação comumente torna-se uma profecia autorrealizável. Eu começo adiando as sessões por conta deste medinho e termino desistindo de levar o jogo para frente por me convencer de que ele será uma porcaria.

Este tipo de medo é bem comum por aí. Tenho amigos que deixam de mestrar RPG, escrever textos para blogs ou até mesmo de fazer trabalhos importantes por este medo de não cumprir com as expectativas. Suas ou dos outros. A preocupação em atingir a perfeição, ou aproximar-se ao máximo dela, termina impedindo a pessoa de fazer ou mostrar algo que já seria bom.
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