Mulher na Mesa

DicasOu: Como jogar com seres humanos.

Edit: O blog Livro dos Espelhos publicou a Carta Aberta das Mulheres RPGistas, provavelmente o melhor texto que você poderia ler sobre o assunto em português.

Versão curta: Estamos no século XXI. Já passou da hora de parar de aprender como lidar com jogadores mulheres/trans/negros/homossexuais/leitores-da-Caras e começarmos a simplesmente tratar as pessoas com quem jogamos como pessoas de carne e osso que merecem respeito.

Versão longa:

Lessa Randall, uma ávida jogadora de RPG. Fonte: http://underthelaughingmoon.blogspot.com.br/2010/05/interview-laughing-moon-girl-lessa.html

Lessa Randall, uma ávida jogadora de RPG. Fonte: Laughing Moon

Em fevereiro deste ano surgiu um caso que gerou certa comoção em alguns grupos de RPG do Facebook. Você pode ler sobre os acontecimentos aqui, mas, resumidamente, uma página de RPG brasileira publicou uma imagem com um decote decorado com um pingente de d20 e colocou o caption da imagem “Quem disse que RPG e mulher não combina?”. Uma escolha triste de palavras. Da forma como utilizou a imagem. De tudo.

Tal imagem gerou uma repercussão enorme (talvez até tenha valido a pena, já que essas coisas terminam dando visibilidade para as páginas) e uma onda enorme de pessoas criticando esta postagem. Rolou, inclusive, a criação da hashtag #NãoSejaBabaca, associada a uma campanha de conscientização da Jambô.

Porém, eu realmente quero passar a discussão filosófica e a sessão de proselitismo que normalmente acompanham esse tipo de caso e focar na resolução de problemas. Não que eu queira com um post curar o mundo. Mas eu quero colocar aqui um conselho pequeno e que você possa levar para a sua mesa. Algo que, espero, possa torná-lo um mestre melhor para seus jogadores e um jogador melhor para os grupos nos quais participa. Afinal, este é um blog de RPG.

Quando você joga RPG, você firma um acordo com as demais pessoas da mesa de que irá divertir-se e buscar contribuir para a diversão do grupo. Isso é meio que a premissa básica de qualquer jogo, na verdade (exceto MOBA, que é um gênero que você joga para passar raiva e espalhá-la sempre que possível). Tanto que se você for uma pessoa que atrapalha os demais de divertirem-se, possivelmente aquele grupo de pessoas não irá chamá-lo novamente para jogar caso você não mude de atitude logo.

Essa é a real regra máxima do RPG. E é a base do que eu quero passar neste texto. Não seja uma pessoa odiosa e você sempre terá com quem jogar. Não contribua para que seu grupo seja tóxico e vocês não espantarão jogadores.

Alguns jogadores sequer se dão conta, mas deixam que suas atitudes atrapalhem a diversão dos colegas do grupo. Certa vez, tive o desprazer de jogar com um cara que insistia em usar os poderes mentais de seu personagem para entrar nos sonhos dos demais jogadores e estuprá-los lá. Deixando de lado as análises do quão dodói da cabeça é alguém que faz isso, fica a pergunta: pra quê isso? Quão divertido será para todos jogar num grupo no qual há um personagem que faz isso? Quão valiosa será esta experiência para aquele jogador divirta-se? Será que não há mais nada de divertido que ele possa fazer no jogo? Se há outras coisas legais para fazer, por que escolher justo algo que tem chances de chatear os demais jogadores?

Lessa Randall de novo, pronta para jogar numa convenção. Seu machismo bate na drow dela e vira mais veneno de contato. Fonte:

Lessa Randall de novo, pronta para jogar numa convenção. Seu machismo bate na drow dela e vira mais veneno de contato. Fonte: Laughing Moon

E é esse o tipo de coisa que você deve se perguntar quando estiver jogando em grupo e desejar jogar algum elemento adicional na trama ou levar a narrativa a dar maior ênfase a algo que até então era só um detalhe. Tanto como mestre, quanto como jogador.

Obviamente, nem sempre você estará atento. Você pode tomar uma ação e só depois ver o resultado. Muitos de nossos preconceitos terminam aflorando justamente nesses momentos de diversão, quando estamos nos policiando menos. É nessas horas em que você tem que ter a empatia de olhar ao seu redor e tentar perceber se todos da mesa estão confortáveis com o que está acontecendo. Somos todos seres humanos, com assuntos que nos incomodam e que simplesmente não queremos lidar quando estamos relaxados jogando (ou tensos e absorvidos pela história).

Caso perceba que algum de seus colegas de grupo não está confortável, tente parar um pouco com a interpretação e perguntar se está tudo bem. Sugerir mais uma rodada de refrigerante ou até mesmo inventar uma ida rápida ao banheiro podem proporcionar a parada curta necessária para que a pessoa desconfortável recomponha sua postura. Você pode aproveitar essa paradinha para conversar com a pessoa, caso tenha intimidade com ela e houver como separá-la do grupo por um instante para saber se está tudo bem mesmo. Eu não recomendo confrontar ninguém na frente do grupo jamais, isso geralmente força a pessoa a entrar na defensiva e piora tudo. Caso a pessoa não queira falar, deixe para lá por agora, tente levar a história para outro curso da melhor maneira possível e deixe para conversar com a pessoa após a sessão de jogo.

Conseguindo ou não falar, tente afastar-se do assunto polêmico tão logo seja possível. Se não conseguiu detectar qual o assunto problemático, evite toda a polêmica que envolva violência continuada com submissão (estupro, escravidão, tortura). Dificilmente esse tipo de coisa é o eixo principal sobre o qual desenrola-se, então é bem fácil largar esse assunto para lá e voltar ao foco real da aventura.

Eu sei que esse tipo de mudança pode ser anticlimática, mas eu realmente defendo que trama e congruência sempre podem ser sacrificados em prol do bem estar e diversão do grupo. Você perde uma oportunidade de fazer algo legal, mas essa perda termina valendo a pena no final das contas. Mantendo seu grupo entretido, você tem mais chances de achar novas receitas para fazer coisas legais para todo mundo sem deixar ninguém ofendido ou chateado. Arriscando, você pode terminar perdendo um ou mais jogadores, o que normalmente não é legal.

Então, se você não tiver a sensibilidade para presumir que alguém do seu grupo ficará ofendido com algo que você está prestes a fazer: ao menos tente estar sempre atento para ver se os demais estão se divertindo. E caso detecte alguém chateado, tente descobrir o motivo sem confrontar a pessoa diretamente na frente das outras.

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Sobre CF

A fellow brazillian player.

Publicado em 21/07/2015, em Opinião e marcado como , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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